quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Disponível, original e sem sentido

Em 1996 um acadêmico australiano chamado Andrew Bulhak “criou um programa de computador para gerar textos aleatórios e sem sentido, mas bastante realistas, em gênero definidos pelo uso de redes recursivas de transição. Para seu experimento ele precisava de um gênero que empregasse “gramáticas livres de contexto” – e o encontrou. Quem visitar a página de seu “gerador de pós-modernismo” na web será recompensado com um artigo acadêmico aparentemente sério, inclusive com notas de rodapé, sobre o “discurso pré-textual que inclui a realidade como totalidade”, ou talvez, “o paradigma subtextual do contexto”. Em seus dois primeiros anos online, o gerador produziu mais de meio milhão desses ensaios – todos inteiramente originais, e todos completamente sem sentido”.

Esse texto acima é parte do livro “Como a picaretagem conquistou o mundo” do jornalista inglês Francis Wheen. Um livro bem interessante sobre como ciclicamente o mundo cai em histerias coletivas, grandes ondas de escurecimento da razão e crenças malucas generalizadas que tomam conta dos jornais pelo mundo, principalmente no último quarto do século passado. O Sunday Times qualificou o livro assim: “um magnífico ataque à estupidez contemporânea”.

Disponibilidade como verdade.

Esse relato lembra um grande engano, típico da geração digital: acreditar que estar na web garante alguma coisa. Estar na web não garante a veracidade de nada. Mas em geral, acabamos todos iludidos (digitais e analógicos) e passamos adiante textos com falsos autores e coisas que não temos a mínima idéia de onde surgiram.

A era envidraçada.

Outro dia encontrei no Google uma tese de mestrado defendida do norte do país de uma pessoa que eu nunca ouvi falar que tinha partes de textos e citações minhas sobre marca. Fiquei orgulhoso e ao mesmo tempo apavorado com isso. É a era “envidraçada”. Tudo é de todos. Tudo está disponível e é visto por todos em qualquer lugar.

Horizontalidade e precariedade.

É a horizontalidade que permite o acesso amplo e irrestrito a uma gama de informação sem nenhum precedente na história da humanidade, mas que também nos fragiliza pela qualidade do material encontrado.

Eu li na internet.

É comum ouvir a expressão: “é verdade, eu li num texto na internet”. A disponibilidade de encontrar praticamente “tudo” é assustadora pelas possibilidades e da mesma forma, assustadora pelas armadilhas encontradas na rede.

A passagem que relato acima do jornalista inglês dá uma certa noção desse perigo. E, não esqueçamos: ela relata uma experiência de 96. Ou seja, uma experiência ainda do século passado, quando as coisas “moviam-se lentamente”. Dá para ter uma vaga idéia do que deve ter de lixo disponível, na velocidade de hoje. Para quem trabalha com informação e comunicação, um prato cheio para enganos e derrapadas.

Por isso informação continua sendo nosso maior percalço. Antes, pelo pouco que tínhamos – e por isso era tão valiosa pela escassez. Hoje, mais valiosa ainda, mas pelo contrário: encontrar informação verdadeira com valor, num mundo repleto de informações duvidosas.

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