segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Ponto de desequilíbrio

Em algum ponto do ciclo de uma epidemia, um fato pode alterar todo o quadro e desequilibrar o sistema. Isso é chamado de ponto de desequilíbrio. Um pequeno fato que no momento decisivo, pode alterar um ciclo e desestruturar todo um sistema. Malcolm Gladwell (o autor do genial livro “Blink”) tem um livro com esse título: Ponto de Desequilíbrio – que também é genial. Nele, o autor mostra dezenas de exemplos sobre a força dos pequenos fatos sobre grandes alterações em ciclos que incluem a moda, crises na sociedade, epidemias. Ciclos positivos e ciclos negativos desencadeados ou interrompidos por um pequeno fator, que muitas vezes não está associado com as causas óbvias.

Nova York

A Nova York dos anos 80 era repleta de pedintes nas sinaleiras e de desocupados que constrangiam agressivamente motoristas lavando os pára-brisas dos carros. Pedintes por todos os lados. Os trens do metrô eram completamente pichados por dentro e por fora. A cidade era pichada de forma indiscriminada. As pessoas tinham medo de sair à rua durante a noite. A cidade era suja e os índices de criminalidade subiam sem parar. (Pare de ler e pense em Porto Alegre)

Janelas quebradas. Primeiro ponto de desequilíbrio.

A tese era simples: janelas quebradas. Pequenos delitos podem desencadear grandes crimes. A teoria das janelas quebradas é de autoria de dois criminologistas chamados James Q. Wilson e George Kelling. Os dois defendiam a idéia que o crime é resultado inevitável da desordem. Diziam eles: “se o vidro de uma janela está quebrado e ninguém conserta, quem passa por ali conclui que ninguém se importa e nem é responsável por ela. Em breve outras aparecerão quebradas e a sensação de anarquia se espalha”. E essa sensação de vale tudo e de abandono vai para as ruas. Esse é ponto de aceleração de uma epidemia de falta de autoridade e um convite para crimes mais graves.

O início do resgate de Nova York.

Pouca gente sabe, mas o declínio da criminalidade em Nova York iniciou com várias pequenas ações da Prefeitura em diferentes pontos (aparentemente sem nenhuma relação com o crime). Uma delas era a fiscalização e a punição com pesadas multas para proprietários de prédios com sinais de abandono ou em situação de degradação visível.


Pichações em trens do metrô. Outro ponto de desequilíbrio.

O ponto de desequilíbrio para alterar o quadro da criminalidade em Nova York começou com a busca de mecanismos para coibir e punir pequenos delitos e de resgatar a idéia de que o poder público se importava sim com a sociedade. O segundo ponto de desequilíbrio eram as pichações. Foram atacadas com muito rigor as pichações dos trens do metrô (algo que aparentemente não tem nada a ver também com a criminalidade). Não importava quantas vezes os vagões eram pichados. Eles eram repetidamente limpos e pintados e voltavam aos trilhos como novos. A ordem era não circular mais com trens pichados. Paralelo a isso a polícia se encarregava de prender pichadores. Além de presos por atentarem contra o patrimônio público eram punidos com rigor. (Pense agora em Porto Alegre)

Pular a roleta sem pagar. Terceiro ponto de desequilíbrio.

Nos mesmos trens sujos e pichados ninguém se importava em pagar. Pular a roleta era a regra. A sensação de abandono era a mesma da cidade. Se os trens estão em péssimo estado é porque ninguém se importa. Se ninguém se importa todo mundo pode pular a roleta e não pagar. Se ninguém paga é porque ninguém se importa com isso também, então vale roubar dentro dos trens e nas estações. Se vale roubar, pode estuprar e matar também. A punição rigorosa para quem pulasse a roleta foi outro ponto de desequilíbrio que alterou o quadro todo e determinou um novo ciclo com números descendentes para a criminalidade de Nova York. O recado era o mesmo que aos pichadores: se não toleramos pequenos delitos como pichar e pular a roleta, não toleramos grandes delitos. Nesse ponto o ciclo se interrompe, se desequilibra e os índices despencam. É alterada toda a lógica do sistema.

Pequenas medidas com grandes resultados.

É incrível constatar como pequenas ações como cobrar de proprietários de prédios a conservação dos mesmos, coibir com rigor pichações, coibir a falta de pagamento das passagens, retirar pedintes agressivos das esquinas e limpadores de vidros das sinaleiras conseguiram alterar todo o quadro da criminalidade em Nova York. O que tem haver a sujeira dos trens, os pequenos delitos cotidianos e as pichações com crimes de morte? Aparentemente nada, mas fundamentalmente tudo. Alguns desses pontos são pontos de desequilíbrio. Eles conseguem alterar todo o sistema, mudar atitudes e iniciar novos ciclos. Em poucos anos uma das cidades mais perigosas do mundo na década de 80 tornou-se uma das cidades mais seguras do mundo. (Pare de pensar em Nova York e Porto Alegre e pense em Gramado).

O exemplo da cidade de Gramado.

Em Gramado existe um ciclo virtuoso que cresce e se fortalece faz anos com repercussões nos atos dos cidadãos e dos turistas. A cidade é limpa por isso é difícil ver alguém atirando papéis no chão. Não se vê orelhões depredados. Não se vê a praga das pichações. Não se vê pedintes nas sinaleiras. Não se vê flanelinhas. A cidade é toda florida com canteiros impecáveis e pequenos vasos de flores por toda a parte. E ninguém rouba os vasos! A arquitetura é bonita. As ruas são cuidadas. Existem lixeiras. Existem bancos nas ruas. E lá, não se estaciona em fila dupla mesmo com todo o movimento de turismo em algumas épocas do ano. Respeita-se a sinaleira. E, incrivelmente lá, todo mundo respeita a faixa de segurança. Por que será?

Vá a Gramado e repare que lá os carros param no menor sinal do pedestre de atravessar a rua. É incrível! Faça o teste e repare nas placas desses carros. Você encontrará gente de todas as cidades, turistas de outros Estados. Muita gente de Porto Alegre. Todos param na faixa. A gente sente-se na Europa com essa atitude. Parece que milagrosamente em Gramado as pessoas mudam de atitude. Ficam civilizadas de uma hora para outra. Existe uma boa-vontade no ar. Existe respeito no ar. Existe uma atitude positiva em toda a cidade. Confesso que desconheço os índices de criminalidade em Gramado, mas aposto que devem ser baixos. (Agora volte para Porto Alegre)

O exemplo de Porto Alegre.

O incrível é que o mesmo carro que respeita a faixa em Gramado acelera mais ainda quando vê gente na faixa em Porto Alegre. Motorista em Porto Alegre parece que se compraz com a idéia de ver o coitado do pedestre fugindo com medo do atropelamento. Por que isso? É o ciclo vicioso. É o ciclo contrário ao de Gramado. A cidade continua suja e o sentimento é “suje mais porque ninguém se importa”. Não se encontra lixeiras em parte alguma, mesmo nos bairros mais nobres. Os orelhões estão sujos e vivem depredados. Os cordões de calçada não são pintados há muito tempo. A maioria das faixas de pedestres está apagada. O mobiliário urbano (paradas de ônibus com publicidade) está depredado e sem responsáveis há mais de dois anos. Os monumentos estão todos pichados, os viadutos estão pichados. Os prédios públicos e privados estão pichados. As sinaleiras continuam lotadas de pedintes agressivos. As carroças infestam as ruas. Temos medo de sair à rua.

Sábado, 16h na Rua Chaves Barcellos em Porto Alegre.

Levei minha filha mais velha para tomar o ônibus para Novo Hamburgo na Rua Chaves Barcellos, no centro de Porto Alegre no sábado passado. A rua fica na lateral do “Bradescão”. Uma travessa da Júlio de Castilhos. O ponto de compra de passagens fica num quarteirão com uma dezena de bares e uma sala de filmes pornôs e muitos pontos de ônibus. Na verdade o ponto fica entre os vários bares com mesas nas ruas.

Descrevo a cena para vocês: achaques de flanelinhas bêbados na porta do carro, gente drogada caída nas calçadas, pedintes que te pressionam, bêbados por todo o lado, som alto, a calçada repleta de lixo. Nenhuma lixeira. Nenhum policial. Nenhuma possibilidade de ajuda. Somente o medo como companhia. Medo nos olhos das pessoas que estavam ali, confinadas em meia-dúzia de metros onde se compra a passagem. Medo nos olhos de quem passava na calçada. Medo nos olhos dos motoristas. Coloquei minha filha no ônibus. Dei mais dinheiro ao flanelinha que me perseguia de volta ao carro. Passei a ter uma vontade terrível de sair de lá, de fugir, de avançar o sinal vermelho com gente passando na faixa, de transgredir na frente do meu filho que estava comigo.

O ponto de desequilíbrio em Porto Alegre.

No ano passado tive o prazer de fazer o planejamento estratégico de uma campanha de trânsito para a EPTC a pedido do prefeito Fogaça e do Secretário Municipal de Mobilidade Urbana. Na primeira reunião o Prefeito citou o exemplo de Brasília no respeito à faixa de segurança e o quanto a cidade tinha conquistado com isso nesses anos. Era um exemplo positivo no trânsito.

Mergulhei nesse planejamento estratégico de cabeça e descobrimos que o respeito à faixa poderia desencadear uma nova atitude com relação à cidade. Colocamos isso no centro de tudo. Derrubamos a idéia de uma campanha de trânsito (como tantas já realizadas) que falasse de muitas coisas (não mate, não morra, não beba, respeite os sinais, seja responsável, etc.).

Concentramos toda a força numa única coisa: respeito à faixa de pedestres. Tínhamos certeza de que esse poderia ser o nosso ponto de desequilíbrio. Faríamos de Porto Alegre um exemplo. O ponto de desequilíbrio que poderia transformar a cidade. Iniciar um novo ciclo de respeito ao cidadão. Não era mais uma campanha de trânsito. Era uma campanha de atitude. De resgate do cidadão e da cidade.

Uma campanha criativa, diversas ações, dezenas de diferentes públicos envolvidos com o foco num único ponto. E nele uma concentração obsessiva: respeito à faixa. Uma nova atitude no trânsito que certamente interromperia um ciclo e desencadearia uma nova postura com muitas outras implicações positivas para o cidadão e para a cidade. Seria um desafio maravilhoso a ser perseguido. Uma meta maior para todos nós. Um sentido de resgate de civilidade e quem sabe de reconquista de muitas outras boas coisas que estão latentes.

Desdobramentos...

Apresentei o planejamento estratégico ao Secretário de Mobilidade Urbana em agosto de 2007 na sede da EPTC. Aprovado. As agências da Prefeitura (Paim, Global e Martins) criaram a campanha que ficou perfeita. Apresentei novamente todo o planejamento para o alto comando, diretoria e principais quadros da EPTC ainda em agosto, que também aprovaram. Apresentamos (Paim, Global e Martins) finalmente ao Prefeito e secretários em setembro que também aprovaram toda a campanha. E passamos a esperar.

No final do ano lembrei desse planejamento.

Já tinha quase esquecido. Mas num final de ano como este, de muitas manchetes e inúmeras vidas perdidas no trânsito lembrei desse planejamento. Lembro dele agora também quando caminho pelas ruas de Porto Alegre e observo a cidade e atitude das pessoas com relação à cidade. Agora lembro sempre também toda vez que vou a Gramado. Não sai mais da minha cabeça.

Entraves.

A gente sabe das dificuldades de uma campanha destas. Sabemos da falta de dinheiro. Sabemos da dificuldade de mobilização. Sabemos dos muitos entraves. Sabemos das hierarquias de prioridades que certamente tomam a agenda de todo mundo. Mas, não me conformo de não termos tentado.

Esta semana é especial para isso.

Achei que nesta semana quando Porto Alegre sedia uma conferência internacional sobre desenvolvimento de cidades justificava o resgate dessa história longa de pontos de desequilíbrio, desencantos de cidadão, planos que não acontecem e frustrações cotidianas de planejamento estratégico.

Um comentário:

Paulo disse...

Excelente material, Arthur!
Um texto fluido e brilhante, meus cumprimentos!
Abraços,
Paulo Ricardo Meira