quinta-feira, 6 de março de 2008

PESSOAS, JACOBY,...PESSOAS.

Outro dia eu estava em São Paulo com o Beto Turquenitch visitando a TBWA/BR e tive o prazer de conversar com o até então CEO, Luis Grottera que nos recebeu gentilmente. Ele pegou meu cartão e se disse surpreso com a minha proposição da Key Jump (inteligência, estratégia e branding) porque vinha pensando e planejando há meses uma nova empresa e que nossas propostas de conceito eram muito parecidas em pelo menos duas das palavras que denominavam o negócio.

E o papo de desenrolou em torno desse tema: perda de espaço e relevância das agências na esfera de poder das empresas. Ele se dizia cansado desse modelo perde-perde. Ponto principal dessa discussão: “a interlocução das agências hoje, se resume a discutir com o gerente de marketing júnior”. Fechamos em gênero e número.

Com cartão de CEO da TBWA/BR

Ele falava que tinha uma grande idéia e quando ia apresentar ao cliente esbarrava no gerente de marketing júnior que lhe dizia não, e tudo ia por água abaixo. Mesmo com um cartão de CEO da TBWA/BR (que não é pouca coisa) não conseguia mais chegar ao presidente da empresa para apresentar uma idéia porque no cartão da TBWA o by line é propaganda e a coisa da propaganda se resumia ao departamento de marketing. Uma grande idéia, revolucionária, que talvez fosse mudar o rumo do negócio, da marca, gerar valor aos acionistas e a coisa acabava indo pelo ralo por causa do gerente de marketing júnior. Pessoas.

Quem é o Grottera.

Vamos combinar que o Grottera tem 40 anos de mercado de propaganda e marketing, foi o responsável pela implantação do processo “Disruption” em toda a América Latina pela TBWA e que já planejou e criou conceitos revolucionários em mais de 50 segmentos de mercado. O mais recente, a campanha “The Uncles” para o lançamento do Sentra que além de genial e eficaz, ganhou todos os prêmios de integração.

Esperança de falar com quem decide.

No lançamento da sua nova empresa chamada LuisGrotteraHelp que se dedicará à Inteligência, estratégia e integração e que promete entregar idéias e não campanhas publicitárias, ele desabafa: “Minha maior esperança com a Help é falar com quem decide, porque as agências são atendidas por gente que não entende o trabalho apresentado por elas”. Fecho com ele de novo!Mais uma vez um problema de pessoas.

Idéias nas gavetas.

Tenho muitos amigos que trabalham em veículos de comunicação e que se queixam da mesma coisa. Planos e projetos apresentados aos atendimentos mofam nas gavetas e nunca chegam a quem realmente decide nas empresas. Param em pessoas.

Idéias no Mac.

Também tenho muitos amigos criativos – criativos apaixonados – aqueles que ficam mais tarde, fora do expediente, só pelo prazer de delirar com uma numa nova idéia para o cliente, revolucionária, surpreendente, fora da pauta e, que também se queixam da mesma coisa. Muitas dessas idéias morrem dentro da agência em algum corredor mal iluminado ou numa sala de reuniões charmosa. Umas nem saem do Mac, morrem na praia da própria criação. De novo pessoas.

Idéias que não saem da produtora.

O Beto dono da TGD é meu cliente e amigo. E uma das grandes angústias do Beto são as propostas de projetos que ele prepara, defende, entrega e nunca mais recebe resposta. E coisas inexplicáveis, como projetos que nitidamente possuem aderência, pertinência e que certamente gerariam lucros para o cliente, que esbarram em alguma coisa (que ninguém sabe explicar o quê) e que morrem por inércia.

A maioria nunca chega onde deveria chegar porque entrou pela porta errada, pela pessoa errada. A grande maioria nunca é apresentada a quem realmente decide e a coisa vai definhando, morrendo lentamente até a gente esquecer. Morre num departamento qualquer. Morre numa pessoa qualquer.

Propostas sem resposta.

Outro dia viajei com o Cavalcante, da Cavalcante Consultores Associados. Uma das grandes consultorias financeiras de São Paulo que atende clientes em todo o Brasil e participa de grandes conselhos no Brasil e fora dele. E ele me dizia que ficava até contente quando recebia um não. Mas pelo menos era uma resposta.

Com seus mais de 30 anos de experiência de consultoria ele dizia que a estatística era assim: de cada 8 ou 10 propostas uma ou duas no máximo fechavam e boa parte deles nem recebiam resposta. Algumas chegavam a seis, oito meses e nenhum sinal: nem sim, nem não. A causa? A mesma: inércia. Pessoas sem respostas do outro lado.

Planos parados.

Sou vice-presidente de duas entidades: ARP e ADVB e a coisa que mais me frustra é apresentar um plano, vê-lo ser aprovado e anos depois não conseguir entender porque não foi realizado. E ver anos depois as pessoas voltando ao mesmo problema - que já tinha sido diagnosticado e que não não foi implementado. E, que parou em alguém que ninguém sabe quem. Mas que certamente não saiu por causa de todos nós. Em resumo, pessoas.

O paradoxo pessoas.

Não tem coisa mais óbvia que matéria com presidente de empresa que não fale do seu pessoal como seu maior ativo. “Aqui nossa maior patrimônio são as pessoas”. “Nosso maior ativo pega o elevador e vai para casa todos os dias – são nossas pessoas”. “Aqui o centro de tudo são as pessoas”. “Nosso capital intelectual”. O Google Brasil orgulha-se de distribuir “gratuitamente” picolés durante o expediente para manter alegres e felizes seu pessoal.

Prêmios de valorização das pessoas por todo o lado. Mérito Ser Humano. Listas anuais das melhores empresas para trabalhar. Listas das empresas que mais valorizam as pessoas. Congressos e seminários de RH por todo o lado.

O que me parece é que nunca as pessoas foram tão reconhecidas como fundamentais nos discursos das organizações, nos quadros de intenções das recepções das empresas e nunca como agora as pessoas foram tão responsáveis por travar a inovação, travar grandes idéias e projetos.

Nesse paradoxo, lembrei do Jacoby.

Lembrei dos meus papos com o Jacoby – agora o grande “J”, da criação da Escala. Desde que trabalhamos na Competence, lá no meio dos anos 90, (o Jacoby como arte-finalista chefe do estúdio e eu como atendimento menos júnior) já nos angustiávamos sobre isso.

Trocamos várias vezes de empresa, mas sempre que nos encontramos e o papo gira em torno de novas idéias, de grandes projetos, de inovação ou de velhos problemas do nosso negócio e a coisa termina sempre com a conclusão que na raiz de tudo estão as pessoas – e que faz uma diferença enorme entender de pessoas. E acabamos criando um bordão para isso. Todo o papo termina assim: “pessoas...” E isso aí Jacoby, de novo, ...pessoas.

Um comentário:

Duda disse...

Arthur, meu bom, a vida é mais ou menos assim: as pessoas erradas estão nos lugares certos lutando para manter as pessoas certas nos lugares errados.

O caso é tão assustador que às vezes eu penso que só precisaríamos de duas pessoas certas nos lugares certos pra começar uma revolução.

Mas, infelizmente, isso é quase impossível.

É assim que a mediocridade se propaga no Rio Grande e no Brasil.

Que bom que tu voltou a escrever.

Um abraço!