segunda-feira, 30 de junho de 2008

PERSONAL BRANDING. LEI NÚMERO 03. CULTIVE UM DEFEITO.

As pessoas tendem a não se apaixonar por quem não tem nenhum defeito. Pode parecer estranho, mas é a mais pura verdade. Isso soa certinho demais e cria a aura de “plastificado, construído, industrializado”. Ou seja, ninguém é perfeito e não é normal parecer ser perfeito.

A diferença entre as marcas corporativas e as marcas pessoais reside aí, na possibilidade de construir uma posição diferenciada e com valor a partir de uma série de qualidades e pelo menos um defeito. Não se assuste com essa proposta. Não quero que você cultive um grande defeito, quero apenas que você não concentre todas as suas energias num DNA de marca que não seja crível para ninguém.

Nossa diferença com as marcas corporativas é que conseguimos trabalhar a “capacidade de gostar” da nossa marca pessoal com muito mais intensidade do que as marcas de produtos e serviços. Nossa intensidade nas relações, nosso poder pessoal, nossa atração como pessoas acrescentam componentes altamente subjetivos à nossa marca pessoal e aí que reside o mistério da paixão, da fascinação e da idolatria por algumas celebridades e personalidades com uma legião imensa de adoradores.

Na construção da sua imagem de marca considere isso. Nosso cérebro da mesma forma que rejeita o paradoxo da alta-qualidade/preço popular também rejeita aquilo que não é crível pelo ponto de vista de não ser real. Quando tratamos de marcas pessoais isso é fundamental.

Ao contrário das marcas corporativas onde seria impossível cultivar um aspecto negativo do produto, nas marcas pessoais isso é possível e pode tornar-se um elemento importante na imagem. Um defeito torna a marca mais próxima de todos nós, mais humana, mais real, mais parecida com a gente e aí está o cerne das paixões inexplicáveis que estabelecemos com seres humanos.

Quando avaliamos a imagem da apresentadora Angélica da Rede Globo, em 2002, num projeto experimental, constatamos que o principal entrave dela junto à audiência era justamente o comportamento padrão impecável no vídeo. Ele falava impecavelmente, andava perfeito, postura impecável, vestia-se, falava, ria seguindo um script à risca que a deixava chata. No entanto, na vida privada, às voltas em dramas amorosos com o Maurício Mattar (naquela época) e numa indecisão terrível se continuaria como "menina" ou como mulher, as pessoas enxergavam virtude. Estranho? Sim. Mas estava aí boa parte do problema e boa parte da solução.

Pense bem: é impossível não gostar de crianças naquela fase onde elas caminham de forma desengonçada com as pernas tortas, possuem uma cabeça desproporcional ao corpo, uma barriga volumosa e que pronunciam erradamente todas as palavras. Olhamos para elas e fica impossível não sorrir apaixonado com essas imperfeições. Essa imagem mítica nos remete para a para o útero materno, para a infância de nossas vidas, para quando as coisas eram extremamente simples e éramos muito mais felizes convivendo harmoniosamente com nossos defeitos.

Não deixa de ser um resgate simbólico da nossa vida deixar-se levar pela emoção com nossos filhos e de repente estar sentado no chão da sala, como um idiota, fazendo um monte de coisas sem sentido para ganhar apenas um sorriso daquele desajeitado bebê. É a pureza da imagem imperfeita dos bebês que nos faz vulneráveis a uma paixão enorme por eles.

Os grandes ídolos cultivam manias e alguns comportamentos estranhos que os fazem mais humanos perto de nós (meros mortais) e isso reforça o valor de marca deles. Inconsciente ou não, deixam transparecer alguns defeitos, acabam por nos aproximar (pela fragilidade) e estabelecemos um vínculo mais forte ainda.

Roberto Carlos (o rei) é paixão nacional e ouvir histórias (verídicas ou não) sobre suas manias e superstições o torna muito mais próximo de nós (meros súditos) e passamos a nutrir mais respeito ainda pela pessoa e pelo profissional.

Zeca Pagodinho outro astro do mundo da música é muito conhecido (e amado) pelo folclore que existe nas suas manias e nos seus hábitos pessoais (não necessariamente ligados à música), mas que o deixam extremamente humano, próximo e real com suas virtudes e seus defeitos.

A luta da apresentadora Ana Maria Braga com o câncer (um drama pessoal terrível que ninguém planejaria) sem querer alavancou sua imagem de forma muito forte e a colocou no mundo dos mortais. A admissão da doença em público em rede nacional, a raspagem do cabelo, foram ações complementares (planejadas ou não) para essa "humanização" da estrela e de um reforço significativo nos laços com sua audiência.

Também encontramos exemplos do contrário. A construção do ex-presidente Collor pecou nesse aspecto. A imagem do ex-presidente era construída com reportagens sobre seus esportes, pilotando carros velozes, voando num caça da FAB, lutando artes-marciais, correndo e pedalando como atleta, fazendo esportes radicais. Um presidente super-homem que constatamos não era verdadeiro. Na primeira crise, o super-homem estava exposto. E sem a liga "humana" na imagem que o poderia ajudar junto à audiência.

Lembre-se que a construção da sua marca pessoal deve levar em consideração essa lei. Faça um inventário pessoal das suas manias e dos hábitos e veja aquele que pode dar um colorido folclórico à sua imagem. Na medida exata pode funcionar como um elemento importante na "liga" dos outros atributos de performance.

Vá em frente. Mas use o bem senso.

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