quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A MARCA QUE DEIXAMOS NOS OUTROS

Outro dia num debate pós-palestra Personal Branding numa platéia repleta de professores, entre uma pergunta e outra, acabamos falando sobre a marca que alguns professores nos deixaram e o quanto muita vezes esta marca acabou direcionando nossas vidas.

Nesse instante lembrei da minha faculdade de letras francês / português na federal de Rio Grande - FURG, lá pelo meio dos distantes anos 80. E, imediatamente lembrei do Mestre Ubirajara que nos ministrava a cadeira de Literatura Portuguesa e que nos acompanhou ao longo de oito semestres. Um sujeito que era funcionário do Banco do Brasil durante o dia e que se desdobrava como professor à noite por pura paixão.

Lembro dele como hoje. Era um professor fantástico. Um apaixonado pela literatura portuguesa clássica. Um sujeito que brilhava o olho e que mostrava uma paixão enorme quando falava.

Entrava em aula absoluto. Sem nada nas mãos a não ser o caderno de chamada. Nem um apontamento de segurança, nem fichas de mão (neste tempo não existia computador ou qualquer outro recurso audiovisual e os professores costumavam ter fichas na mão com detalhes do conteúdo). Ele, nada nas mãos em 4 anos de curso. Um solitário que se bastava. Sua sabedoria, uma incrível memória e a capacidade de nos deixar em suspenso por horas seguidas.

E discorria por quase 3 horas a cada semana com trechos dos trovadores do século XIII, trazia na cabeça datas e mais datas, históricos, nomes, recitava de cabeça versos de Camões e sermões do Padre Vieira. Sim, Padre Vieira o pai dos sermões. Que dizia que a linguagem deveria ser tão elevada, nobre e magnífica que deveria ser entendida pelo homem mais humilde e menos letrado.

Nas aulas a turma copiava cada palavra. Ele não esperava. Falava. E as pessoas morriam tentando registrar cada frase, cada palavra e enchiam páginas e páginas com tudo que ele falava em aula em 3 horas corridas. No final do semestre, tinha gente que enchia 3 ou 4 cadernos, apresentava sintomas de tendinite e não guardava nada. Eu não. Não escrevia quase nada. Apreciava apenas. Viajava. Me deixava levar. Curtia cada minuto vivendo um espetáculo.

As provas do Mestre Ubirajara eram um caso a parte. Recebíamos 2 folhas de "papel ao maço" (eu explico: grandes folhas pautadas, maiores que folhas de A4, dobradas com 4 faces para escrever). Na prova eram 8 faces em branco sobre a mesa e nenhuma pergunta. Apenas um pequeno texto de 3 ou 4 frases no quadro. Ele olhava para a turma e dizia: comentem. Era a mais temida prova do semestre.

E as pessoas em aula se dividiam entre os que o temiam e odiavam pela exigência e aqueles que o amavam. Eu, me colocava entre a meia-dúzia que o admirava e o respeitava profundamente. Era o único Mestre entre todos os mestres e doutores da universidade que tínhamos o prazer de chamar de Mestre. Foi meu orientador no trabalho de conclusão (uma atitude considerada suicida no curso, na época). Uma orientação que me rendeu um 9.7 com sabor de 11!

Falando nele, quase 30 anos depois, me levou a reflexão que este sujeito teve uma enorme contribuição para o que eu sou hoje e por isso sou muito grato. Como consultor de estratégia, como planejador de marcas e como palestrante, vivo de ler, de escrever e de falar. Me tornei um dependente. Me alimento de ler. Vivo de ler. Me curo e me reabilito lendo. E, sem sombra de dúvida, o Mestre Ubirajara é um dos mais importantes culpados por isso. E sua marca me possibilitou ser quem eu sou hoje.

O que me leva a pensar que, às vezes, esperamos a oportunidade de grandes feitos para deixarmos a nossa marca no mundo.Mas não existe o grande feito. O grande feito é o pequeno feito, quase rotina invisível na vida de quem é apaixonado pelo que faz. E este é o grande legado que podemos deixar: marcas que inspiram pelo exemplo. Marcas que inspiram pela paixão. Esse talvez possa ser o maior legado de qualquer um, em qualquer área.

Obrigado, Mestre Ubirajara. Sua marca deixou um grande legado.

7 comentários:

Victoria disse...

E Você deixa sua marca em mim sempre que tenho a oportunidade de te ler.

Alexandre Silva disse...

Mestre Ubirajara, quantos destes existem por aí? Vários, o problema é que nem todos estão preparados para identificá-los. Parabéns pelo artigo, gratidão é um das principais e mais bonitas virtudes do homem.
Abs,
Alexandre Silva

Carla Costa disse...

Espetacular!!!!

Ellen Augusta disse...

Olá, estou procurando o contato de Leodegar Jardim, certa vez ele me entregou um cartão de sua empresa com um telefone dele, mas o telefone não funciona mais. Se voce possui parentesco com ele e puder me passar um contato agradeço. Fui colega dele na empresa Sul Brasileira de Metais há alguns anos. Obrigada.
contato: vidavegana@itelefonica.com.br

Ricardo Mallet disse...

Olá Arthur.

Estou aproveitando a pausa de final de ano para estudar seu livro Personal Branding pois estou num momento de "virada profissional".
Na página 198 há um texto com o título As pessoas querem chegar lá no qual são expostas algumas opiniões e conceitos que batem muito com um vídeo que publiquei recentemente no Youtube. O vídeo é sobre um artigo meu intitulado O alívio imediota e gostaria de compartilhar contigo. O link é http://www.youtube.com/watch?v=8XkyEfxQZcM
Espero que aprecie. Grande abraço.

anarizzon disse...

Arthur, já escrevi para ti anteriormente e saiba que teu livro mudou a minha carreira como psicólogo clínica. Uso-o como recurso para meus pacientes, muitos deles que já tiveram o prazer de te assistirem palestras. Saibas que a semente da inspiração também é um privilégio teu! Obrigada de novo!

anarizzon disse...

Arthur, já escrevi para ti anteriormente e saiba que teu livro mudou a minha carreira como psicólogo clínica. Uso-o como recurso para meus pacientes, muitos deles que já tiveram o prazer de te assistirem palestras. Saibas que a semente da inspiração também é um privilégio teu! Obrigada de novo!